pororoca

Ler pessoas deve ser um dos atributos silenciosos mais subestimados que tem. Tão útil sacar qual é a do sujeito em cinco minutos, separar e classificar mais à esquerda ou à direita. Existe hoje histórias de pessoas que foram agredidas por usarem uma camiseta vermelha; cem anos atrás a denúncia podia acontecer com uma ingênua contagem de dedos — começasse pelo dedão, já entregava uma descendência germânica e, portanto, inimiga. Havia também um outro método, mais refinado e cruel: a pessoa tinha que dizer esquilo. Parece que squirrel é tão impronunciável para alemães quanto eichhörnchen para ingleses, então o resultado era quase sempre fatal. Torço para que nenhum bichinho tenha morrido pelo peso de seus fonemas.

Criada por uma família de cariocas no grande ABC paulista, aprendi cedo sobre a musicalidade farta que era serventia da casa. Mais uma vez, eram os números que mostravam o histórico: havia o “dezz” seco da tia-avó mineira, o “seTe” do vizinho italiano, o “céainco” das primas de segundo grau da baixada fluminense. Foram anos de paixonites sonoras, de reprodução involuntária de sotaque, de pontes que cobiçavam quilômetros de geografia e repertório que iam além de mim. Acabei passando batido pelo continente inteiro e hoje, no hemisfério norte do mundo, fico meio vexada com o meu amadorismo acerca de praias, florestas, charques, pântanos. Os gringos todos quebram o pescocinho, incrédulos; eu ensaio uma tradução mambembe de “quem é rico mora na praia, mas quem trabalha não tem onde morar” de Fagner para disfarçar o constrangimento inato em justificar falta de experiência ou, pior!, falta de cor. As perguntas são sinceras e claras como os olhos dos interlocutores; é tão estranho estar do outro lado da mesa, o que responde, em vez do que pergunta. Mas acontece que um dia eu fui como eles, um dia eu também não soube. O que? Tudo – como perguntar, por qual motivo perguntar, precisa mesmo perguntar?

Os movimentos deixam tudo uma bagunça. Há minutos gloriosos em que o lá ou o cá deixam de importar e fica tudo assim meio nublado, meio turvo, como o encontro de duas águas. Dizem que a pororoca tem um ruído específico, diferente de mar quebrante ou de marola de lago, justamente por ser uma mistura urgente de densidades diferentes de líquido. Nem tenho credibilidade para falar de rio, piá de prédio que sou; só sei que essa coisa, essa mistura que acontece, faz barulho e vaza para fora das línguas, das palavras, das fronteiras. Aprender a boiar no turbilhão é resguardo mudo que não se diz, pois só se sente.

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