skid snow

Um dos passeios vespertinos da semana passada nos levou, Zelda e eu, de encontro a um casal que lutava contra condições típicas da terceira idade para instalar cordões de luzinhas ao redor de árvores e arbustos espinhentos. Ela disparava instruções e queixas da ponta do jardim e ele, confuso, com os braços abertos no limite da corcunda, examinava os metros embolados de fio e perguntava, talvez, que raio de coisa que tinha feito para ir parar ali, debaixo de uma garoa persistente, preso num emaranhado de galhos ressequidos e fios que talvez nem fossem mais tão elétricos assim, pois achado promocional de cinco anos atrás na Canadian Tire. Além do mais, o neto poderia ser tão novo a ponto de mal conseguir chamar a rena de Rudolph, ou então ter idade apenas suficiente para exigir, num acesso lacrimoso, um iPad no corredor do Wallmart. Afinal de contas, era essa a desculpa e a motivação de sempre: era por eles que fazia o que fazia. Reposicionou os pés com cuidado na grama úmida e mal tive tempo de temer pela fragilidade alheia – quem quase caiu fui eu.

A falta de relevo da cidade, somada à posição estratégica de fronteira e ao custo mais baixo de vida são, ouvi dizer, razões suficientes para fazer famílias e aposentados se assentarem aqui. Depois do sobe-e-desce de São Paulo a falta de relevo é uma bênção para a panturrilha, uma promessa de ciclismo, uma exclamação apaixonada pelas calçadas inteiras, pavimentadas bem bonitinho. Acontece que a falta de relevo e a calçada bonitinha se combina com as folhas mortas e o caldo cinzento de chuva de novembro e provoca, a cada distração mais demorada, derrapadas ridículas, exageradas, semi-gargalhantes de nervosismo. Mentira: as ameaças de queda acontecem também na primavera, com os freezebacks teimosos de abril e a lama suja que precede as flores, e no verão, com esquilos, insetos e outras coisas vivas que animam demais a mesma Zelda que me faz deslizar nas folhas molhadas. Há uma dificuldade descomunal em caminhar como um bípede dos mais simples.

Esse sábado foi o primeiro de neve, neve o dia inteiro. Neve a ponto de deixar a calçada bonitinha coberta por uma camada de algo que podia ser um gel, podia ser uma enorme quantidade de slurpee, mas era só aquele ponto indeciso entre estado sólido e líquido que faz a pessoa derrapar maravilhosamente a cada novo poste que a cachorra decide ir fungar.

bambiskid(socorro)

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