com polpa

Faço parte dessa safra de pessoas que bota água nas coisas. Usar o xampu até o final não é uma possibilidade – é preciso aproveitar aquele restinho que insiste em grudar no fundo da garrafa de plástico e resiste a teimosia espremedora. Tubos de hidratantes são cortados ao meio por uma tesoura implacável, os restos são minuciosamente mesclados com outras loções que dizem nutrir mas que na real faz parte de desculpa eufórica para brincar de laboratório. A lógica é uma mistura de economia com uma dose de saúde irracional: vai da pasta de dente (((sempre tive a impressão que quem falava creme dental também usava camisa polo com jacarezinho; peço desculpas aos envolvidos))), que é absolutamente esmagada de uma ponta a outra, aos sucos de fruta que são diluídos para tornar mais palatável os adoçantes secretos certamente presentes porque afinal de contas hoje em dia é tudo açúcar não é mesmo.

Esse método é uma tragédia.

Acontece que diluir as coisas para usar até o fim é uma eficiência manca, uma ideia de tolerância que na verdade não existe porque as coisas ficam uma merda. Como aquela vez em que a pessoa teve a infeliz ideia de pedir um expresso grande para acordar e passou três sólidas horas usando quantidades ridículas de água e açúcar para ajustar sem sucesso. Assim como aquele vinho vagabundo com rótulo engraçadinho que ganhou água gelada porque estava quente, porque assim já hidratava um pouco de uma vez só, porque que morte horrível algo de nome tão bonito como cabernet sauvignon acabar com o gargalo encaixado no ralo de uma pia qualquer. Aquelas relações que já estavam nas últimas e que foram estendidas por uma balela promissora de que aquele restinho de coisa podia ser aproveitado.

Por mais de dez anos foi impossível o consumo de chá, essa coisa rebaixada a mato fervido, água suja reverenciada por motivos obscuros e insossos. A diluição é, quem diria, uma ciência exata – acompanhada de colherinhas, cronômetros e outras delicadezas, traz de lambuja uma bula recheada de proporções mas que não devia ser nunca, deus me livre!, mais importante que o paladar pessoal. Água demais tira o gosto, o valor, o sentido; de menos, entope a bomba, vira mingau. Melhor mesmo é dizer que valeu, qualificar a polpa do suco e aguar o feijão proporcionalmente à qualidade da visita, que ninguém aqui é besta.

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