Passaporte

Ontem à noite eu andava nas ruas do bairro vazio tomando um sacolé meio salafrário com amigos que caçavam pokemon no celular. Vira e mexe passava uma ou duas pessoas de bicicleta, paralamas reluzindo preguiçosos. Na beira do rio a brisa era salgada e fácil e eu não posso negar que cheirava também a dólares, muitos, daquele tipo que circula nas veias e nos sobrenomes desenhados no cimento. Meu avô não tinha o que calçar; espio tudo com suspeita, abrindo bem os olhos, apalpando o acabamento da calçada pelo meu solado fino. Dobro o indicador em um ângulo inconveniente a cada vez que cruzo o caminho com passos mais calmos, com homens, com lanterninhas estranhamente potentes de atletas ocasionais. Dizem que quanto mais para a beira d’água e para o oeste se vai, mais barra pesada a coisa fica – mas não para mim, nunca para mim, oxalá-creio-em-deus-pai. A pobreza, todo mundo sabe, é uma fumaça escura que distorce a paisagem e se alinha com a Zug Island e seus segredos metálicos. Me lembro do comentário casual do colega de trabalho sobre retaliação violenta, do sonho americano de liberdade, da repetição preta pobre e periférica fatal, dos olhos cansados que olhei e que fugiam de fogos de artifícios como cães de colo por motivo de tiroteios e bombas passadas que a biologia, essa ingrata, não deixava esquecer. Meus amigos, meus amigos queridos que engolem venenos homeopáticos e discretos como meia fina sobre tudo neles que diverge. Mas afinal de contas que raios são esses outros; eu rezo por bandeiras que sinalizem buracos, eu torço para ter voz quando o dia chegar, alinhavo estatísticas em uma tentativa de retórica. O passaporte é uma cor primária harmonizada com uma infusão açucarada de privilégio.

Um rabino redondo e risonho certa vez me disse que se entende as coisas em três lugares do corpo: na cabeça, no coração e nas entranhas. Por causa disso eu poderia até sentir o incômodo pragmático de quando uma conta aborrecida não fecha, um pulsar mais forte do sangue talvez, mas nunca, certamente nunca viria um amargo violento na boca diante de simbolismos doloridos que alguns de nós carregamos com respeito e resignação. Então ficava combinado que essa e apenas essa era a nossa diferença. Fui embora pesada, uma nuvem gorda de chuva, sem saber que eu aprenderia a amar as diferenças e depois as pessoas que as portavam de modo que me tornaria uma extensão, uma japona que abraçava corpos decadentes e causas frágeis por que afinal de contas eu também já tive frio. Os dias aqui ainda são feitos de disparidades, gratidão e disparidades, vocês não se enganem. Os sapatos, é claro, seguem gastos e tortos.

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