nails

nails are the ones I scratch my back with before shower, sensing the crust of healing griefs;

nails that we hit in the coffin every time we had sex to fill out feelings that lacked;

nails that you let grow after that job – the one on dexterity, #1 in your resumé; sour irony behind doors – nails that I got back to brutal biting – nails that, like us, grow up and grow apart;

nails that rebelled and escaped the walls in the house of trembling floors – years of hidden negligence; compromise weighs way too many pounds (I mumbled while you thumped your way through the living room);

nails that fell down the wooden beams, eaten by mysterious termites – no one has ever passed as much time in the basement to know the nests;

nails that articulate G’s metal legs, breathing swift pumps out in the square meter;

nails that hold poorly printed photos of V in an aggressive purple halter, the seven-inch heels juxtaposing clasped lips;

nails that lack in my own walls;

nails that can be traced back by light angles and patient fingers, revealing layers of blue, pink, yellow, faint cigarettes;

nails that state the previous tenant’s delight in collecting mugs, family pictures, dust, christmas lights by the droopy roof;

nails I need for hanging the frameless posters I got for too many months – now wrinkled and dog-eared by fear and a maniac anticipation for diaspora;

nails hard with rust dyeing the dripping water that schleps through the subway tiles;

nails strategically positioned in a grout crossing – the softest place a six-inch wrist could find out of needy exasperation;

nails, respectful little things that remain even after –
nails that hold the ghosts of who we used to be
until they don’t.

skid snow

Um dos passeios vespertinos da semana passada nos levou, Zelda e eu, de encontro a um casal que lutava contra condições típicas da terceira idade para instalar cordões de luzinhas ao redor de árvores e arbustos espinhentos. Ela disparava instruções e queixas da ponta do jardim e ele, confuso, com os braços abertos no limite da corcunda, examinava os metros embolados de fio e perguntava, talvez, que raio de coisa que tinha feito para ir parar ali, debaixo de uma garoa persistente, preso num emaranhado de galhos ressequidos e fios que talvez nem fossem mais tão elétricos assim, pois achado promocional de cinco anos atrás na Canadian Tire. Além do mais, o neto poderia ser tão novo a ponto de mal conseguir chamar a rena de Rudolph, ou então ter idade apenas suficiente para exigir, num acesso lacrimoso, um iPad no corredor do Wallmart. Afinal de contas, era essa a desculpa e a motivação de sempre: era por eles que fazia o que fazia. Reposicionou os pés com cuidado na grama úmida e mal tive tempo de temer pela fragilidade alheia – quem quase caiu fui eu.

A falta de relevo da cidade, somada à posição estratégica de fronteira e ao custo mais baixo de vida são, ouvi dizer, razões suficientes para fazer famílias e aposentados se assentarem aqui. Depois do sobe-e-desce de São Paulo a falta de relevo é uma bênção para a panturrilha, uma promessa de ciclismo, uma exclamação apaixonada pelas calçadas inteiras, pavimentadas bem bonitinho. Acontece que a falta de relevo e a calçada bonitinha se combina com as folhas mortas e o caldo cinzento de chuva de novembro e provoca, a cada distração mais demorada, derrapadas ridículas, exageradas, semi-gargalhantes de nervosismo. Mentira: as ameaças de queda acontecem também na primavera, com os freezebacks teimosos de abril e a lama suja que precede as flores, e no verão, com esquilos, insetos e outras coisas vivas que animam demais a mesma Zelda que me faz deslizar nas folhas molhadas. Há uma dificuldade descomunal em caminhar como um bípede dos mais simples.

Esse sábado foi o primeiro de neve, neve o dia inteiro. Neve a ponto de deixar a calçada bonitinha coberta por uma camada de algo que podia ser um gel, podia ser uma enorme quantidade de slurpee, mas era só aquele ponto indeciso entre estado sólido e líquido que faz a pessoa derrapar maravilhosamente a cada novo poste que a cachorra decide ir fungar.

bambiskid(socorro)

pororoca

Ler pessoas deve ser um dos atributos silenciosos mais subestimados que tem. Tão útil sacar qual é a do sujeito em cinco minutos, separar e classificar mais à esquerda ou à direita. Existe hoje histórias de pessoas que foram agredidas por usarem uma camiseta vermelha; cem anos atrás a denúncia podia acontecer com uma ingênua contagem de dedos — começasse pelo dedão, já entregava uma descendência germânica e, portanto, inimiga. Havia também um outro método, mais refinado e cruel: a pessoa tinha que dizer esquilo. Parece que squirrel é tão impronunciável para alemães quanto eichhörnchen para ingleses, então o resultado era quase sempre fatal. Torço para que nenhum bichinho tenha morrido pelo peso de seus fonemas.

Criada por uma família de cariocas no grande ABC paulista, aprendi cedo sobre a musicalidade farta que era serventia da casa. Mais uma vez, eram os números que mostravam o histórico: havia o “dezz” seco da tia-avó mineira, o “seTe” do vizinho italiano, o “céainco” das primas de segundo grau da baixada fluminense. Foram anos de paixonites sonoras, de reprodução involuntária de sotaque, de pontes que cobiçavam quilômetros de geografia e repertório que iam além de mim. Acabei passando batido pelo continente inteiro e hoje, no hemisfério norte do mundo, fico meio vexada com o meu amadorismo acerca de praias, florestas, charques, pântanos. Os gringos todos quebram o pescocinho, incrédulos; eu ensaio uma tradução mambembe de “quem é rico mora na praia, mas quem trabalha não tem onde morar” de Fagner para disfarçar o constrangimento inato em justificar falta de experiência ou, pior!, falta de cor. As perguntas são sinceras e claras como os olhos dos interlocutores; é tão estranho estar do outro lado da mesa, o que responde, em vez do que pergunta. Mas acontece que um dia eu fui como eles, um dia eu também não soube. O que? Tudo – como perguntar, por qual motivo perguntar, precisa mesmo perguntar?

Os movimentos deixam tudo uma bagunça. Há minutos gloriosos em que o lá ou o cá deixam de importar e fica tudo assim meio nublado, meio turvo, como o encontro de duas águas. Dizem que a pororoca tem um ruído específico, diferente de mar quebrante ou de marola de lago, justamente por ser uma mistura urgente de densidades diferentes de líquido. Nem tenho credibilidade para falar de rio, piá de prédio que sou; só sei que essa coisa, essa mistura que acontece, faz barulho e vaza para fora das línguas, das palavras, das fronteiras. Aprender a boiar no turbilhão é resguardo mudo que não se diz, pois só se sente.